Quarta-feira, 28 de abril de 2004
Gael García Bernal assume a bandeira do Che
Em entrevista ao 'Estado', ator mexicano conta o
que aprendeu em 'Diários de Motocicleta', que
estréia no dia 7
LUIZ CARLOS MERTEN
Houve momentos em que Gael García Bernal
duvidou de sua capacidade para interpretar o
jovem Ernesto Guevara de Diários de
Motocicleta. Embora o filme de Walter Salles
seja sobre o jovem Che, antes de se tornar o
revolucionário que virou um dos maiores ícones
do século 20, a carga sobre Gael era imensa.
O filme era sobre Ernesto, mas o espectador
sabe que ele é o Che. Como passar isso?
"Tive momentos de pânico, mas aí
Rodrigo e Walter me tranqüilizavam e, mais
do que isso, com a confiança deles
devolviam a minha confiança. Não poderia
estragar um filme feito com tanta ternura."
Rodrigo é o ator argentino Rodrigo De La
Serna, que faz Alberto Granado, companheiro
do jovem Ernesto em sua viagem de descoberta
da América Latina, quando se forjou o
futuro revolucionário, em 1952. Walter é o
diretor Walter Salles, que assina Diários
de Motocicleta. O filme estréia no dia 7
nos cinemas brasileiros e logo em seguida
vai a Cannes, integrando a mostra
competitiva do mais importante festival de
cinema do mundo. Gael tem o sorriso tímido
e até um pouco triste. Os olhos revelam
transparência. Walter Salles deve tê-lo
escolhido pela franqueza desse olhar que
passa, imediatamente, uma idéia - esse cara
só pode ser do bem.
Aos 25 anos, o ator mexicano já
participou de filmes importantes, como
Amores Brutos, de Alejandro González Iñárritu,
E Sua Mãe Também, de Alfonso Cuarón, e O
Crime do Padre Amaro, de Carlos Carrera.
Este será um ano especial de sua carreira
porque ele estará duplamente em Cannes - no
filme de Pedro Almodóvar La Mala Educación,
que vai abrir o festival, no dia 12, e em Diários
de Motocicleta, que terá sua sessão de
gala no dia 19. Gael García Bernal esteve
na segunda-feira em São Paulo para a pré-estréia
brasileira do filme de Walter Salles. Chegou
gripado, no domingo, mas já estava se
sentindo um pouco melhor. Após uma
entrevista coletiva para mais de cem
jornalistas e um encontro com um grupo mais
reduzido de seis, Gael recebeu o Estado para
uma individual, no L'Hotel.
Estado - Como recebeu o convite de Walter
Salles para interpretar o jovem Ernesto
Guevara de Diários de Motocicleta?
Gael García Bernal - Fiquei contente, mas
também um pouco assustado. Quando foi
convidado por Robert Redford para dirigir o
filme, Walter lhe disse que um filme assim só
poderia ser feito com atores de língua
espanhola, falado em espanhol. Não apenas
eu, mas Rodrigo (De La Serna) e todos os
demais atores entramos no projeto por causa
desse conceito. O filme não é sobre o Che,
mas todo mundo sabe que o jovem Ernesto vai
virar o Che. Como negar a influência dele
sobre nossas vidas? A Revolução Cubana foi
um divisor na nossa consciência de
latino-americanos. Minha geração já
nasceu marcada pela figura do Che, como um
herói latino-americano moderno. Che foi um
argentino que lutou em um país que não era
o dele e virou um cidadão da América
Latina e do mundo. Nas várias fases de sua
vida, foi sempre um modelo de integridade e
coerência. Gostaria muito de acreditar que
esta história, surgindo neste momento,
poderia fortalecer nas pessoas o desejo de
buscarem os próprios ideais, fugindo ao
consumismo da era em que vivemos.
Estado - Qual foi sua maior dificuldade ao
interpretar o jovem Ernesto?
Gael - Tudo foi difícil e, ao mesmo
tempo, formávamos uma equipe muito
integrada, como se fôssemos uma família, e
isso facilitava as coisas. Tive meus
momentos de dúvida e insegurança, mas um
dia Rodrigo me liberou.
Tínhamos feito uma pesquisa muito grande,
eu ouvira centenas de vezes os discursos do
Che e queria recriar a voz dele. Rodrigo,
com muita simplicidade, sugeriu que eu
usasse a minha voz. Disse que o Che gostaria
que eu fizesse isso. Foi o que fiz e, a
partir daí, encontrei em mim o jovem
Ernesto. Criei a fantasia de que ele estava
presente, nos acompanhando.
Imaginava como ele gostaria que eu
interpretasse as cenas. Foi emocionante para
mim.
Estado - Você passa essa emoção. Há
cenas lindas, como aquela em que você tenta
romper o bloqueio da garota no leprosário.
A doença a está consumindo, ela se recusa
a fazer uma operação. E Ernesto, com
grande delicadeza, faz a ponte que traz a
garota para o mundo.
Gael - Que lindo ouvir isso. O filme foi
feito com muito amor. É um filme de estrada,
como E Sua Mãe Também, mas distinto
daquele. Lá, os personagens viajam numa
bolha, não são afetados pela paisagem.
Aqui, interagem com o mundo e o importante
é o efeito do que ocorre na estrada e à
margem dela sobre Ernesto e Alberto. É um
filme sobre travessias, não apenas dos
personagens. Nós, que fizemos o filme, também.
Ninguém foi o mesmo depois de Diários de
Motocicleta.
Estado - O que mudou em você?
Gael - A maior lição que tive com
Ernesto foi a de que é preciso viver com
integridade e coerência. E que, apesar das
diferenças, nós, latino-americanos, temos
uma identidade muito forte, que só
precisamos assumir e fortalecer.
Estado - Vamos a um exemplo prático - você
fez um belo discurso contra a guerra na
cerimônia do Oscar do ano passado, ao
anunciar a canção de Frida, que concorria
ao prêmio da categoria. Você estava imbuído
do espírito do Che?
Gael - Se não estivesse fazendo o jovem
Ernesto, poderia até dizer tudo aquilo, mas
seria num outro tom. Aquele foi um momento
especial. Estava de penetra numa festa que
era da indústria americana, numa sociedade
que difunde o consumismo e a guerra. Acho
que nunca me senti tão latino-americano
como ali. Tinha de ser daquele jeito e não
só pelo Che.
Afinal, a canção que Caetano Veloso
cantava era de um filme sobre Frida Khalo,
uma pintora mexicana comunista. Ela também
seria uma estranha, ali.
Estado - Que tal a sensação de voltar a
Cannes?
Gael - É um pouco como ir pela primeira
vez. Fui há quatro anos com Amores Brutos
porque queria, já que não era convidado. E
agora volto com dois filmes dos quais me
orgulho muito.
Estado - O de Almodóvar vai inaugurar o
festival...
Gael - E eu não gostaria de falar sobre
La Mala Educación. Estou aqui para divulgar
Diários de Motocicleta.
Estado - Mas o público quer saber sobre a
sua experiência com Almodóvar. É verdade
que você interpreta um travesti?
Gael - Sim, mas não quero falar muito
para não estragar a surpresa. Só posso
dizer que Pedro é muito diferente de
Walter. Estou indo além das diferenças óbvias.
Ambos, no fundo, são apaixonados pelo que
fazem e eu tive outra experiência muito
intensa no La Mala Educación. É um filme
forte, visceral.
Sinceramente, estou gostando muito que o
filme de Pedro passe fora de concurso. Para
mim, seria doloroso ter dois filmes em
competição. Não me agrada essa idéia de
disputa, como se o cinema fosse uma corrida
de cavalos.
Filmes são instrumentos de conhecimento.
Como ator e como homem, acho que cresci
muito com essas duas experiências. Pedro não
vai concorrer e Walter não quer alimentar
falsas expectativas, mas uma vitória de Diários
de Motocicleta, neste momento, seria como
acender um farol.
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