Havana ganha prestígio no circuito cult
Obra de Fernando Perez, fundamental, ainda está longe do grande público
Filmes hispano-americanos não costumam ser bem recebidos no Brasil atual.
Nos anos 50, a Pelmex (Películas Mexicanas) conseguiu transformar atores
como Cantinflas e María Félix em astros prestigiados por milhares de
brasileiros. Isto num tempo em as classes C e D iam ao cinema. Hoje, o
grande público ignora a produção da América de fala castelhana. A maior
prova de que filmes populares em seus países de origem não se dão bem por
aqui está no caso Sexo, Pudor y Lagrimas. O filme vendeu quase 5 milhões de
ingressos no México. No Brasil, resultou em fracasso retumbante.
Pois a mesma história filmada com estética e atores globais (Sexo, Amor e
Traição) estourou. Já foi vista por 2 milhões de brasileiros. Nove Rainhas e
Filho da Noiva mobilizaram 1,2 milhão de argentinos (cada um). No Brasil,
não passaram de 300 mil ingressos (cada um). Estes dados são ridículos, se
levarmos em conta a população brasileira (170 milhões), cinco vezes maior
que a argentina (34 milhões). Aqui, proporcionalmente, cada um deles teria
que vender 5 milhões de ingressos.
O público do Festival de Punta del Este vibrou, duas semanas atrás, com a
comédia chilena, Sexo com Amor. Sérgio Salinas Roco, da empresa Filmoarte,
conta que o filme vendeu, no Chile (14 milhões de habitantes), 1,4 milhão de
ingressos. Ou seja, foi prestigiado por 10% da população. Um título com
igual sucesso no Brasil teria que mobilizar 17 milhões de espectadores.
Sexo com Amor é uma comédia "costumbrista y picaresca" que encontra similar
na brasileira Os Normais, de José Alvarenga. Só que mais fincada no
cotidiano erótico de três casais chilenos (um de classe alta, outro de
classe média e um terceiro bem popular). Será que Sexo com Amor teria futuro
no mercado brasileiro? Ou o país que colocou algumas pornochanchadas no
ranking das grandes bilheterias prefere ver comédias faladas em português e
com nossos atores? Se a resposta for sim, a Total Filmes, que transformou
Sexo, Amor e Traição em sucesso, deve correr para comprar o roteiro do
ator/diretor Boris Quercia e "abrasileirá-lo" (num remake).
Quem não está interessado em remakes - mas sim em intercâmbio cultural -
indaga: que filmes hispano-americanos devem ser lançados aqui? Os que fazem
sucesso comercial em seus países de origem (caso do televisivo Apaixonados)?
Ou títulos de arte, como El Bonaerense (um filmaço!), Bolívia (Adrián
Caetano) e La Ciénaga (Lucrécia Martel), esquecido nas prateleiras da
Riofilme?
O bom senso indica que é melhor arriscar em filmes de arte. Pelo menos até o
grande público - por algum milagre! - se interessar pelo cinema de nossos
hermanos. Caso contrário, filmes que fizeram milhões de espectadores em seus
países de origem, aqui serão vistos por gatos pingados. E esquecidos, horas
depois.
Com Suíte Havana, do cubano Fernando Perez, este risco - o do esquecimento -
não se coloca. O filme, vencedor do último Fest Havana, é o cult do momento.
Para uns, é obra documental. Para outros (inclusive o júri, que o premiou)
trata-se de filme de ficção. Na verdade, trata-se de doloroso - embora nada
cínico - retrato de uma Havana feita de vidas pequenas, que em nada lembra a
Ilha heróica, alimento dos sonhos revolucionários dos anos 60.
O cinema cubano vive crise sem igual. Poucos filmes são feitos (eram dez no
anos 80; são dois ou três, hoje). E os que aparecem, com raríssimas exceções
(caso de todos os títulos de Perez), são recheados de clichês, macumba para
turista. Filmes que envergonham a tradição deixada pelo grande Gutierrez
Alea (Memórias do Subdesenvolvimento).
Quem, entre os exibidores brasileiros, se arriscar a comprar Suíte Havana,
terá que se contentar com pequena bilheteria. Mas imprimirá em seu currículo
o privilégio de revelar, aos brasileiros, o melhor cineasta surgido em Cuba
desde Alea. O realizador, de 60 anos, é autor de um belo curta sobre Omara
Portuondo, a grande cantora do Buena Vista Social Club (aquela que corta
corações ao cantar Dos Gardenias, com Ibrahin Ferrez). A tardia estréia (aos
43 anos) de Perez no longa se deu com thriller adrenalinado
(Clandestinos/86) sobre a guerrilha urbana em Havana.
Em 1990, com a Ilha em crise profunda, ele realizou o triste Hello,
Hemingway (que participou do Fest Gramado). Mais triste ainda é Madagascar
(95), talvez um dos filmes mais sofridos do mundo. La Vida es Silbar (2001)
também competiu em Gramado. Em 17 anos de carreira no longa, Perez só
dirigiu cinco títulos. Nenhum deles lançado comercialmente no Brasil. Falta
ousadia a nossos distribuidores. (M.R.C.)
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