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BUENOS AIRES - No dia 12, no café da manhã, minha mulher e eu planejávamos
de que maneira iríamos comemorar aniversário de casamento. Pela primeira
vez, apanhamos aquela garrafa de champanhe que nos parecia estranha no
"desayuno", junto aos sucos de laranja e grapefruit e levamos duas taças
para a mesa. Tudo é champã para os portenhos. Piza? Com champã! Um tostado
de miga? Com champã! Vamos almoçar? Antes, um champã! Happy-hour? Champã.
Quando abri os jornais, vi páginas e páginas dedicadas a Julio Cortázar.
Vivo, o autor de O Jogo de Amarelinha (Rayuela) faria 90 anos. No dia 12,
fez 20 que morreu. As livrarias levaram para as vitrines tudo o que havia
disponível. Mas não se encontrava um único exemplar de Rayuela, a não ser em
um e outro sebo da Avenida Corrientes.
Tudo está sendo Cortázar nesta semana na cidade. Ensaios, memórias
nostálgicas, exposições, leituras nos cafés literários, debates,
retrospectivas em cinemas. Quem se esquece que um dos filmes mais cult dos
anos 60, Blow Up, foi baseado em um conto dele? Até hoje, passados 40 anos,
nos perguntamos: por que o filme se chamou Depois Daquele Beijo? Mistérios
da história da titulagem de filmes no Brasil. E há quantos anos não se
reedita Cortázar no Brasil?
Um dos mais emocionados depoimentos sobre Cortázar veio da escritora Luisa
Valenzuela em La Nación. Relatou um encontro com Julio, em Nova York, meses
antes dele morrer. Ela falou da novela definitiva que ele, "ébrio do
absoluto, queria escrever". Não escreveu. No mesmo jornal, Ivonne Bordelois
destacou a resposta dada por Cortázar no livro La Fascinación de las
Palabras. Pergunta: Como escritor, o senhor acredita ter um defeito
insanável? Cortázar: "Sim. Não ter tido coragem suficiente de levar adiante
algumas experiências que entrevi no campo mental e não traduzi, não levei
para a escritura, porque sentia que rompia totalmente as pontes com o
leitor. E se o leitor me era indiferente em minha juventude, agora não é."
Então, meus olhos bateram no anúncio de página inteira sobre a volta do
espetáculo Tanguera, no teatro El Nacional. Tango? Por ali começaríamos. Um
show tipo Broadway vivido por um grupo de dançarinos que parecem flutuar no
palco. O que fazem com os pés e as pernas? Como fazem? Como é possível não
se ??enrodilharem irremediavelmente? Tudo parece fácil e natural. Enquanto o
samba, esse samba de passistas, das quadras e da avenida, é essencialmente
feminino, o tango é dança masculina, tudo gira em torno do homem que conduz,
determina a regra do jogo. O tango é dança a dois, mas ambos parecem se
ignorar, enquanto se atraem, as expressões são sérias, fechadas,
impassíveis, impenetráveis, e sedutoras. Há no homem quase um desprezo pela
parceira, ela está ali como apoio, degrau para que ele brilhe e se exiba,
ágil e cheio de ritmo. Dança sensual em que os corpos se unem e se afastam,
as pernas se entreabrem e se entregam, se fecham e fogem, provocam,
desafiam. É o jogo do sexo, a busca da penetração, entrega, briga e
aproximação.
Mas Tanguera é show no palco, distante, e queríamos algo próximo e a
indicação estava no pequeno Guia de Buenos Aires escrito por Hugo Ibarzábal,
o argentino que tendo vindo ao Brasil abriu com a Ana o Martim Fierro, uma
das melhores casas de empanadas de São Paulo (Rua Aspicuelta, na Vila
Madalena). Agora, Hugo está à frente do San Telmo, na Rua Cônego Eugênio
Leite, onde há shows de tango às quartas-feiras. A cidade de Hugo é a visão
de alguém que a conhece e a desvenda para o viajante não babacão, aquele
diferenciado que não procura apenas lojas de couros, descontos e
liquidações. Aproveito para uma retificação do Guia. O Café Los Dos Chinos,
na Calle Juramento, em Belgrano, casa tradicional por ele recomendada, não
existe mais. Com a recessão, fechou as portas. Em seu lugar existe um
daqueles horrendos maxikioskos que vendem revistas, cigarros e tranqueiras.
Assim, Hugo nos conduziu ao Bar Sur, no 299 da Calle Estados Unidos, em San
Telmo. Casa mínima, velha, autêntica, deve ter dez mesas, no máximo. O show
concebido por Ricardo Montesinos começa às 20 horas e vai até as 3 da manhã,
dividido em quatro partes: Alberto Rigo, cantor de tangos, tradicional, a
cara do Ziraldo. Nora Carroll, cantora que mescla canções internacionais e
popular argentino. Um trio formado por Eduardo Gutierrez (guitarra),
Leopoldo "Polito" Melo (bandoneón) e Roberto Abal (violino). Abal,
assombroso, é a cara do professor Antonio Candido. E um casal excepcional,
Barbara Fox e Jorge Lemos, dançando tango em uma pista mínima. O que esses
dois fazem em um espaço de quatro metros quadrados impressiona pela leveza,
ritmo e sensualidade. Imperdível. Necessário. Nada de truques, nada de
turismo fake. A sensação é de que aquele bar fica na esquina de casa e dá
vontade de ir todas as noites.
Terminada a primeira dança, o casal se separa e cada um tira alguém da
platéia. A bailarina me acenou. Impossível não ir para a pista, é uma
descortesia. Naquele momento, quando estendi os braços para a mulher magra e
esbelta, um rosto forte, pensei nas festas de juventude quando eu me
amargurava na cadeira, sem coragem de levantar e dançar um bolero com Suely,
Marília, Norma, Alda, Laurinha ou Gilda, dois para lá, um para cá. A dança
era necessária, era a aproximação, o estar junto, colado. E eu, duro,
paralisado, vencido pela timidez que me pesou a vida toda! De repente,
loucura! Estou em um bar de San Telmo, pronto a conduzir em um tango, uma
das danças mais difíceis do mundo. Logo eu que não conduzo nem minha vida!
Avisei Barbara: "Sou duro de corpo, péssimo no ritmo." A música começou, a
mulher, dócil, se deixou levar e o tango - para surpresa dela - se tornou um
bolero lento, quase samba-canção, porque as pernas queriam executar passos
ousados, a cabeça não comandava, a prudência recomendava. Por que não
enlouqueci? Ao terminar, Barbara, gentil, disse a mais deliciosa mentira que
ouvi na vida: "Como danças bem!" Uma broma, dizem lá. Uma gozadora. Mas
simpática! Merecia um champã!
Tomado de "O Estado de São Paulo" Ignacio de Loyola Brandão
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